O seu arabesque não foi perfeito uma vez, ela faz toda uma sequência de perfeição. Depois, ela só baixa um pouquinho o braço direito nos arabesques, mas não atrapalha em nada. Sua qualidade técnica e artística não se resume a isso, ela é belíssima! Em tempos de ballet acrobático, assistir a uma bailarina tão nova dançando dessa maneira me deu até um afago no peito.
“Variação da Fada Lilás”, Bianca Scudamore, Prix de Lausanne 2015.
Cada vez mais raro no ballet, o arabesque 90 graus é sinônimo de perfeição. Nesta foto, tudo está no seu devido lugar: a perna do arabesque em relação ao chão e à perna de base, a colocação do tronco, os braços, as mãos, a cabeça, o olhar. Tudo.
A bailarina Kathryn Morgan já fez parte do New York City Ballet, mas deixou a companhia por causa de um problema de saúde. Ela não abandonou a carreira e continua dançando profissionalmente.
Durante um período, ela publicou excelentes dicas e explicações em seu perfil no Facebook. Depois, criou um blog. Agora, um canal no YouTube. Kathryn fala sobre tudo, de maquiagem de palco a exercícios para melhorar o desempenho. Ela explica superbem e, agora com os vídeos, mesmo quem não sabe nada de inglês conseguirá acompanhar.
Eu separei um vídeo, o de exercícios para fortalecer os pés, melhorar o balance e o trabalho de pontas. Mesmo quando utiliza uns acessórios que não temos em casa, ela dá uma outra alternativa (uma toalha dobrada, por exemplo). Há legendas com o número de repetições dos exercícios ou o tempo necessário para se manter em uma determinada posição.
Em relação aos exercícios na ponta, eles são indicados para quem já iniciou o trabalho em sala de aula. Não adianta pular etapas e realizar o que vocês não estão preparadas para fazer, o resultado pode ser desastroso. Estão avisadas.
Eu gosto de fazer tricô e estou na fase de passar do cachecol a outras peças. Mas qualquer pessoa que começa a tricotar, sabe: é preciso paciência. Além disso, a grande graça está em fazer a peça e não simplesmente vê-la pronta. Quem quer apenas a blusa, é mais fácil e rápido comprá-la em uma loja.
Mas não existem lojas de técnica clássica, tampouco de atributos necessários para dançar. Por isso, para ser flexível, melhorar o en dehors e fazer uma bela diagonal, você terá de seguir o caminho mais difícil: estudar e treinar.
O ballet clássico tem mais de 300 anos e não existe apenas uma maneira de aprendê-lo, e cada qual tem a sua própria relação com a dança. Mesmo assim, existe algo igual para todo mundo. É preciso tempo. Não, você não sairá dançando com apenas dois meses de aula. Você não terá um excelente trabalho de pontas em um semestre. Não vai. Não adianta dizer que sim, brigar comigo, falar que você é diferente, que sua professora/mestra/mentora disse que sim. Porque isso não é uma questão de opinião.
“Ah, mas a Sylvie Guillem chegou ao mais alto posto da Ópera de Paris com apenas oito anos de ballet clássico.” Ela é exceção. E quem também é exceção, não está preocupado em acelerar o processo de aprendizagem, pelo simples fato de não precisar disso. E se você quer pular etapas, você é regra, como 99,99% de quem dança.
É preciso percorrer um longo caminho para sentir o ballet no nosso corpo. Eu demorei pelo menos três anos para isso. Hoje, o plié está em mim e não preciso pensar tanto nele para realizá-lo. Significa que o faço perfeitamente? Claro que não. Mas ao pensar no plié, meu corpo já se prepara para o movimento. Para isso, foram alguns anos de treino, não foi do dia para a noite.
Ainda há muitos movimentos e sequências pela frente. Tenho muito a fazer. Ainda não domino o trabalho de pontas, mas não tenho pressa, porque esse domínio chegará apenas quando eu não precisar pensar no eixo e na força do meu corpo para não desequilibrar.
Mas eu gosto de caminhar. Todo caminho é construído ao longo do tempo. Toda arte é assim.
Aceito, entendo e compreendo que muitas pessoas veem o ballet clássico com outros olhos. Só fui perceber isso agora, depois de anos escrevendo sobre ele. Há pessoas que têm no ballet a sua jornada pessoal. Ele é o seu Monte Everest e toda a jornada só valerá a pena quando chegarem ao topo e fincarem a bandeira.
Aí entra a angústia de conseguir a perna alta, a pirueta tripla, os fouettés, a hiperextensão. Como se não existisse dança sem isso. Oras, a menos que você seja bailarina clássica profissional, e nesse caso a questão é completamente outra, isso não é necessário, ou não deveria ser. A menos que exista a jornada rumo às medalhas imaginárias, em que ostentamos algo que fará nos sentirmos vitoriosos.
Não estou fazendo juízo de valor, tudo bem? Querer isso é legítimo. Mas, por favor, assumam essa postura. “Eu quero chegar lá.”
Existe a arte, existe a jornada pessoal. O artista só existe se as suas criações saem da esfera particular e encontram o outro, quando sua obra estará finalmente concluída. O pessoal existe quando as minhas conquistas me bastam, porque lutei por elas com afinco e as almejei por muito tempo.
Ambos podem coexistir? Sim, mas são diferentes. E reconhecer essa diferença diminui todos os desgastes existentes entre quem quer uma coisa e quem quer outra.
Daqui em diante, serei mais flexível com aquelas pessoas que veem na dança a sua jornada pessoal. É meu dever respeitá-las e jamais diminuir os seus objetivos.
Mas, por favor, respeitem o fato do ballet clássico ser arte para mim. É assim que eu o vejo e é assim que ele existe na minha vida.
Por isso, sempre defenderei o tempo das coisas. O tempo da técnica. O tempo do estudo. O tempo do conhecimento do próprio corpo. O tempo do palco. O tempo da dança.
Todo ano é a mesma coisa: no dia 29 de abril, lá vamos nós celebrar a arte que nos move. Também faço parte dessa turma, e assim publiquei em 2010, 2011, 2012 e 2013.
Mas hoje não celebrarei nada. Não farei ode à dança. Não falarei de todos os seus aspectos na minha vida. Não vou dizer que ela é importante para todos nós. Nada disso.
Porque todo ano vejo sempre as mesmas coisas: uma celebração dos bailarinos, amadores, estudantes, professores, maestros, ensaiadores, coreógrafos. Hoje não é o dia de quem dança.
Para celebrar a dança é necessário reconhecer que ela é tão antiga quanto a humanidade. Ela nasce conosco, porque antes mesmo de andar e falar, nós nos movemos. O nosso corpo fala antes que possamos esboçar as palavras. Dançamos sem saber que é isso o que estamos fazendo.
Mas crescemos. E, em algum momento, tentam nos tirar esse direito. Porque existem as danças, os métodos, as formas, as técnicas, os dogmas, os preconceitos, os detentores do saber. Cada qual reivindicando para si o domínio sobre essa arte.
Não adianta fazer isso, meus caros. A arte é do ser humano. Ela é de todos nós. Ela é de cada um de nós.
É isso o que eu quero: que todos nós possamos dançar. Não apenas na sala de casa, no meio da rua, em pleno parque, mas escolher a dança que nos chama, nos dedicarmos a ela sem receio. E sem ninguém fazendo elucubrações, questionamentos ou, pior, cerceando quem quer seguir o caminho que lhe chama o coração.
Dançar é um direito.
Pelo menos no Dia Internacional da Dança, não nos esqueçamos disso.
Há tempos eu não escrevo um texto questionador porque resolvi ficar quietinha no meu canto, mas tenho visto um desdém tão grande com o ballet clássico que resolvi falar sobre o assunto. Sim, desdém, e dos próprios bailarinos e bailarinas.
[...] Eu resolvi passear por várias páginas do Facebook para descobrir o que os bailarinos e bailarinas falam sobre ballet clássico.
Pausa. Eu fiquei chocada!
Dentre tantas coisas que me surpreenderam, talvez a mais incômoda tenha sido o uso indiscriminado da palavra talento. Uma foto de uma bailarina hiperflexível e a chuva de comentários: “Isso que é talento”.
Dança é movimento e ponto final.
Por isso, me digam qual técnica ninja vocês utilizam para saber, só de olhar para uma imagem, qual o grau de coordenação motora, equilíbrio e musicalidade de uma bailarina? Mais ainda, como alguém consegue analisar o seu nível técnico?
E olha que estou sendo legal. Geralmente, essas fotos mostram meninas desalinhadas fazendo uma força desmedida para sair bem na fotografia. Nem falarei das poses nas sapatilhas de ponta, porque eu choraria um mês, sem parar.
Pessoas de fora associarem ser flexível com ser bailarina, eu entendo. É o senso comum. Mas bailarinas dizerem isso? Além do mais, estudantes de ballet clássico não conseguirem reconhecer um developpé torto ou confundirem arabesque com penché? Só pode ser brincadeira.
Depois não adianta publicar nas redes sociais: “Eu amo ballet, sem ele eu não vivo”. Vive sim, está vivendo sem ele há muito tempo porque o que muitos têm propagado por aí não é, nem nunca foi, ballet clássico.
Nessa semana, faleceu o grande bailarino e professor David Howard. Em uma entrevista ele disse: “[...] se Vaganova fosse viva e pudesse ver o que está acontecendo, eu acho que ela se mataria”. Não apenas ela, não é? O Petipa, o Ivanov, o Bournounville, o Cecchetti, a Pavlova…
Daqui a pouco, não será mais necessário estudar tantos anos para ser bailarina. Bastará pegar uma seleção de ginástica rítmica e colocar em O lago dos Cisnes. Ué, hoje em dia a questão não é ser forte e flexível? Problema resolvido.
Sim, nem tudo está perdido, há algumas bailarinas dedicadas que conhecem ballet clássico muito bem. Mas isso deveria ser regra, não exceção.
Vamos mudar isso? Comecemos trocando o Facebook pelo YouTube. Menos fotografias, mais vídeos. Depois, por favor, vamos estudar técnica clássica. Vocês querem que eu explique como eu estudo especificamente sobre isso? Terei o maior prazer em fazer um post. Só não podemos deixar as coisas como estão. O ballet clássico não merece ser resumido a uma perna alta. Não mesmo.
Linda animação sobre uma bailarina desajeitada e seu reflexo no espelho. É fácil nos identificarmos com o seu lado desajeitado, difícil é deixarmos acontecer o que vem depois…
Hoje é dia de falar das mães e sabem... Eu gostaria de citar o nome de todas as mães das minhas bailarinas, no entanto certamente esqueceria ou não saberia o nome de todas, por isso vou falar de uma forma mais abrangente sem citar nomes para não cometer injustiças.
Ser mãe de bailarina é sem dúvida nenhuma uma tarefa complicada e imagine só, se fosse mãe e bailarina ao mesmo tempo? Mas esquecem não vou falar de mãe/bailarina e sim daquelas que ajudam suas filhas a dançar. Elas costuram sapatilhas para as suas pequenas seguirem os próprios sonhos. Ajustam os figurinos para as filhas brilharem no palco. Conhecem as lantejoulas, os vidrilhos, as coroas, as meias-calças, os collants...
Sabem fazer um coque com perfeição. Vão levar e buscar nas aulas, nos ensaios, nos espetáculos. Choram quando as filhas sobem ao palco. Amparam nos momentos de frustração. São as espectadoras da primeira fila, mesmo que se sentem no fundo da plateia. Em um corpo de baile com 45 cisnes, conseguem achar a própria filha. Vivem com o coração apertado ao ver as agruras pelas quais passam as suas bailarinas, mas torcem por voos mais altos, sempre.
Quando foi que sua mãe costurou sua primeira sapatilha, fez seu primeiro coque ou arrumou sua roupa? Você se lembra? Talvez não! Mas saiba de uma coisa ela não precisaria fazer isso, mas foi a maneira que ela encontrou de abençoar o seu caminho. Ela estava lá você quando dançou pela primeira vez. Mesmo que ninguém na plateia te veja, ela te enxerga. E não importam quantas vezes você suba ao palco, ela sempre se emocionará. De alguma maneira, você também dança para ela porque sua mãe sempre olhará para você.
Parabéns. Sem o amor e dedicação de tantas mães mundo afora, o ballet clássico já teria morrido há tempos.
Por Cássia Pires, adaptado por Cia de Arte Flor de Menina
Essa foi a pergunta que a Maria, leitora do blog "Dos passos da bailarina", ouviu do seu irmão ao mostrar para ele um vídeo do entrance de “A Bela Adormecida”. Ela não soube o que responder e sugeriu um post sobre o assunto.
Nós somos essas pessoas que fazem ballet. Afinal, o que nos leva a isso? Acho que há dois pontos importantes: um pessoal e um coletivo.
O primeiro diz respeito às nossas próprias questões. Cada pessoa tem lá os seus motivos para escolher, justamente, o ballet clássico. Realização de um sonho de infância. Projeto profissional. Amor pela dança. Paixão pelo estilo. Alta capacidade de dedicação. Atração pela dificuldade. Continuação da atividade de infância. Enfim, uma série de fatores.
O segundo é o que nos une. Quando pensei no post, logo lembrei das palavras de Kurt Froman, coreógrafo assistente do filme “Cisne negro”, em “A metamorfose do Cisne Negro”, documentário que acompanha o DVD do filme. Ele disse o seguinte:
“Você começa na barra, todo dia, até os profissionais; começa com os pliés e parte para os tendus. Então, o mundo do balé é muito regular, repetitivo e previsível. Há um certo tipo de personalidade que é atraído por essa estrutura, porque você sempre sabe o que vai fazer naquele dia, e é uma busca pessoal do ideal, sabe. Fazer o seu corpo alcançar algo que nunca alcançará. Você tenta conseguir uma linha bonita, girar as pernas 180 graus completos, que, na verdade, o corpo não devia fazer.
“Você sabe de cara se é algo que vai mesmo querer fazer, porque exige tanto fisicamente e emocionamente, mas ao mesmo tempo, não há nada que lhe dê tal… (ele abre os braços e suspira profundamente).”
Impossível não nos reconhecermos nessas palavras. Tenho cá para mim que essa previsibilidade nos acalma. O mundo pode estar um caos, mas o plié continua sendo um plié há mais de trezentos anos. Não sabemos do amanhã, mas da sequência da barra a gente sabe. E essa busca incessante pela perfeição talvez seja para encontrar aquele momento mágico em que um movimento perfeito simplesmente acontece. Quem já conseguiu isso sabe do que estou falando. Um dia eu conto o meu…
E esse suspiro profundo no final? Entendemos muito bem do que ele está falando e, mesmo assim, não conseguiríamos explicar o seu significado a ninguém.
Por fim, acho que nos sentimos parte de algo muito maior. Não importa se somos profissionais, amadores, estudantes, o ballet clássico nos une em qualquer canto. E não apenas hoje, mas ontem e amanhã. Ou ninguém nunca pensou que os passos realizados na sua aula, a Anna Pavlova também os fazia no começo do século passado?
Essa dúvida do título não é apenas do irmão da Maria. Geralmente, é de todas as pessoas que não fazem ballet. Quem nunca ouviu um “Mas por que você faz isso? Não tem outra coisa?”.
“Plié, grand plié, petit plié não formam um artista da dança. A cabeça tem que funcionar. É preciso saber a origem das coisas para mergulhar nelas e ser um bom profissional da dança.”
No dia 17 de janeiro, Sergei Filin, diretor artístico do Bolshoi Ballet, foi ferido com ácido no rosto e nos olhos. Segundo o boletim médico, ele não corre o risco de perder a visão e sua recuperação demorará, pelo menos, seis meses.
Sei que tudo isso vocês já sabem. Li a respeito logo depois do acontecido, porque os blogs internacionais divulgaram a informação pouco tempo depois. Quando os portais brasileiros começaram a noticiar o assunto, várias pessoas o comentaram comigo. Parece que o tempo todo, alguém me dizia implicitamente: “Você não vai falar sobre isso?”.
Hoje, o jornal Folha de S.Paulo publicou um depoimento da Mariana Gomes, bailarina brasileira que faz parte do Bolshoi Ballet. É bem triste, chega a angustiar. O texto completo pode ser lido aqui. Depois que o li, duas pessoas mandaram o link para mim. Percebi que era melhor falar sobre o assunto.
Quando “Black Swan” estreou, quem se lembra das mil críticas ao filme? O mundo do ballet ficou em polvorosa. Nem precisa ir muito longe, aqui no blog mesmo há dezenas de comentários. Porque era um absurdo, porque nada era daquele jeito, porque aquilo era um desrespeito ao ballet clássico, porque Darren Aronofsky denegriu a nossa imagem.
A realidade superou a ficção. Cadê as críticas sobre tamanho absurdo? Cadê todo mundo falando que as coisas não são desse jeito? Um diretor está com queimaduras de terceiro grau em seu rosto e seus olhos, provavelmente, por disputas dentro de uma companhia de ballet. Será que alguém realmente percebeu a gravidade da situação?
Não podemos nos iludir. Isso não foi algo da Rússia, de Moscou, do Bolshoi. Essa ambição desmedida que dá voz à crueldade está à espreita em todos os cantos. A diferença é que alguém foi covarde o suficiente para partir da ideia à ação. Mas em pensamento, muito ácido já foi jogado uns nos outros. No ballet, meio mundo está corroído por dentro. Mas antes, ninguém poderia abrir a boca sobre isso, falar era o suficiente para ser julgado. Agora, a ferida está exposta.
Acho que existe um problema no centro da questão. Estamos falando de artistas que dedicam a sua vida inteira, desde a infância, por um propósito que ninguém sabe se será realizado. Poucos fazem parte de companhias. Raros chegam ao posto de primeiros-bailarinos. O restante, vai deixando seus sonhos pelo caminho. Justifica? Claro que não. Mas o ballet clássico funciona dentro de um sistema que estimula o pior das pessoas. Eu disse o sistema, não o ballet clássico. A dança é o que é. O que as pessoas fazem disso é o ponto-chave.
E o que aconteceu não é exclusividade da dança, existe em praticamente todas as áreas. No mundo, o que vale é a vaidade. A realização a qualquer preço. O topo da pirâmide. E aí, vamos continuar vivendo assim? Enquanto isso for estimulado, nada vai mudar.
No ballet, a vaidade é vista como um mérito. Não é. A ambição desmedida é vista como necessária. Não é. A competição é tida como imprescindível. Não é. Ou todos acordamos, ou é daqui para pior.
De tudo isso, o mais importante é a recuperação do Sergei Filin. Gostaria, sinceramente, que o seu retorno fosse no palco. Seria lindo vê-lo dançar totalmente recuperado. Seria uma prova de que a arte é maior. De que o amor pelo palco e pelas pessoas é maior. De que todos nós somos maiores do que tudo isso.
Não é difícil perceber o meu amor pelo estudo, o próprio blog é um reflexo disso. Mas eu reconheço que estudar não é a atividade número um na vida da maioria das pessoas. Engraçado é que ter conhecimento é bem-visto e a vaidade intelectual é altamente estimulada. Há pessoas que querem saber tudo, mas não querem conhecer nada. O saber pelo saber. Não vejo utilidade nisso. Para mim, o conhecimento deve existir para melhorar a nossa vida de alguma forma. Neste caso específico, para vivenciarmos o balé clássico da melhor maneira possível.
Por outro lado, há pessoas que querem estudar, mas se perdem no mar das informações. Como separar o joio do trigo?
Vou compartilhar com vocês como eu estudo sobre dança. É claro que isso não é uma regra, mas talvez ajude quem quer encontrar o seu próprio caminho para estudar.
Aprenda a usar o YouTube
Às vezes no blog, quase sempre no Facebook, eu publico vídeos de dança. Vocês acham que eu passo horas buscando vídeos? Eu tenho uma conta no YouTube e estou inscrita em vários canais de dança, de companhias a bailarinas profissionais. Dessa maneira, eu sempre vejo quais vídeos foram publicados recentemente por esses canais. Não só, o próprio YouTube indica vídeos que eu gostaria de assistir e já encontrei verdadeiras pérolas nessas indicações. Vídeos raros, repertórios completos e em partes, documentários. O YouTube é nosso braço direito no estudo da dança, basta saber usá-lo.
Não tenha receio do que desconhece
Vocês acham que sou fluente em inglês e que sei francês superbem, certo? Isso porque eu sempre publico vídeos nesses idiomas. Eu não sou fluente em inglês. Eu estudei francês por pouco tempo, e há mais de dez anos. Mas assisto o que for nessas duas línguas e entendo muita coisa, e sabem por quê? Elas não me intimidam. Não preciso entender tudo. Russo também não me intimida, mesmo eu não entendendo nada. Com os textos, isso é ainda mais fácil, existe o tradutor do Google. Aí, nem polonês me assusta. Se você ficar esperando tudo legendado, bonitinho em português, o seu conhecimento será bem limitado. Aliás, nos vídeos de bastidores e nos documentários, boa parte das cenas são de dança e essa linguagem é universal. Ou seja, não tem desculpa.
Escolha os seus preferidos e os acompanhe
Eu não tenho ideia do número de companhias de dança existentes no mundo. De bailarinos profissionais então, muito menos. É humanamente impossível acompanhar todos. Por isso, eu tenho os meus escolhidos. Entre as companhias, a Ópera de Paris está no topo da lista. Sei o que acontece, quem é contratado, quando tem audição, quem é escolhido étoile, enfim. Por alto, eu acompanho Royal Ballet, Bolshoi Ballet, American Ballet Theatre, English National Ballet, Grupo Corpo e São Paulo Companhia de Dança. Entre as bailarinas, Aurélie Dupont (Ópera de Paris), Evgenia Obraztsova (Bolshoi Ballet), Olesya Novikova (Kirov Ballet) e Laëtitia Pujol (Ópera de Paris). Basicamente, é sobre o trabalho delas que pesquiso e os vídeos que mais assisto. Todas estão na ativa, ou seja, é mais fácil encontrar material sempre.
Acabou? Não. Há as bailarinas do passado: Margot Fonteyn e Carla Fracci são as queridas do meu coração.
Essa é a base da minha pesquisa. E quem acompanha as minhas publicações deve ter percebido que esses nomes não são novidade nem no blog, tampouco no Facebook.
Se abra ao acaso
Mas ter os meus preferidos não significa que só eles existem. Quando pegamos o costume de pesquisar, novos nomes sempre aparecem e as boas surpresas surgem. Outro dia mesmo me deparei com um vídeo da bailarina Grettel Morejón. Já cismei com a Mathilde Froustey e passei dias assistindo aos seus vídeos. Foi sem querer que descobri o Teatro Mikhailovsky. Pesquisando sobre George Balanchine, eu conheci o New York City Ballet.
Outra maneira de descobrir coisas novas é escolher um assunto que você queira estudar. Está em um dia “O lago dos cisnes”? Digite “Swan Lake” no YouTube ou no Google e passe horas se divertindo. É assim que as coisas surgem.
Use o Facebook e o Twitter a seu favor
Companhias de dança, bailarinos e bailarinas, grandes escolas de formação. Estão todos lá no Facebook publicando vídeos e informações. No Twitter, a mesma coisa. Eu prefiro o Facebook, porque há um feed de notícias e só vemos as páginas que curtimos. Ou podemos cancelar a assinatura daqueles amigos que amam publicar o tempo todo e acabam atrapalhando o acompanhamento de outras publicações. Há muita informação disponível nessas redes, mas muita! É só saber usá-las. Mas também não adianta “curtir” todo mundo e não conseguir acompanhar nada. É legal seguir a tática da escolha: siga os seus preferidos e acompanhe o que achar mais relevante para você.
Leia sobre balé clássico
Uma coisa que aprendi nas aulas de metodologia de pesquisa: no meio acadêmico, os termos “prática” e “teoria” estão em desuso, agora é “aplicabilidade teórica”. Ou seja, teoria e prática caminham de mãos dadas. Quem lê sobre balé sabe que esse conhecimento acaba se refletindo na sua dança. Só isso é tema suficiente para um post, mas por ora, basta saber que é bacana ler sobre o assunto. Nem que seja de vez em quando.
Estude alguma coisa todo santo dia
Uma variação tem, em média, de um a dois minutos. Ler uma página de um livro leva alguns minutos. Um post de um blog ou um artigo de jornal, um pouco mais. Um documentário sobre dança costuma ter menos de duas horas. Os repertórios completos, idem. Vídeos de ensaios ou bastidores, uns cinco minutos. Um desses por dia, só um!, faz uma imensa diferença. E vamos combinar, é difícil estudar sobre ballet para quem ama o assunto?
Descanse
Também é preciso descansar a cabeça e o corpo. Assim, o saber decanta e nos apropriamos do que aprendemos. E o conhecimento passa a fazer parte de nós. Parece exagero? Só parece. Mas é assim mesmo que funciona.
Se alguém tiver alguma dúvida ou outras maneiras de estudar, basta dizer nos comentários. Porque o próximo passo é compartilhar o conhecimento. Afinal, quanto mais pessoas conhecerem, melhor para todos nós.
"Não farei uma ode à dor. Bailarina sente dor e todo mundo sabe. Não farei uma ode ao sofrimento, porque todo artista conhece bem o seu significado. Não farei uma ode à dedicação, porque disso pressupõe qualquer trabalho bem-feito.
Farei uma ode à plenitude. Eu danço porque adoro sorrir. Por dentro.
Eu sou bailarina até de pijama. O meu corpo carrega consigo a técnica que eu já aprendi e espera ansiosamente por aquilo que eu ainda não conheço. As músicas dos repertórios soam na minha cabeça ao longo do dia; quando não, as cantarolo sem querer.
A rotina das aulas de balé clássico. As descobertas de uma coreografia. As mil repetições. Nada disso é um fardo para mim. Sou apaixonada por todo o processo. Assim, entendo o significado da palavra "pertencimento". A dança é o meu lugar.
Não quero a medalha do "eu consegui!" porque não há um fim. A minha busca é outra: eu não sou atleta, eu sou bailarina.
Sinto apenas por não estar no palco como eu gostaria e o tanto que eu gostaria. Mas o balé clássico está comigo o tempo todo e isso é o suficiente para me fazer sorrir. Por dentro."
Da autoria de Cássia Pires, para começar as postagens de 2013, essas belas palavras...!
Quando começamos a fazer balé, não importa a idade, sabemos que não será simplesmente dançar. [...]. Há regras e características muito bem definidas. Não só, há comportamentos que se repetem. É fácil reconhecer uma bailarina sem que ela precise dizer, e não estou falando de postura ereta.
Na Cia que participamos, todos se sentem especiais, não são simples mortais. Somos bailarinas. Não é “qualquer pessoa” que sabe dar pirueta tripla. Nos vangloriamos pelas horas de dedicação, pela exigência da perfeição. Agradecemos aos céus pela dor que sentimos, praticamente um atestado de que dançamos. Balé sem dor? Impossível.
A competição. O ego. A vaidade. A soberba. Os especiais dentre os especiais, aqueles que são melhores tecnicamente do que os outros, mas se acham melhores do que os outros e ponto final.
Melhores em relação a quê?
E o palco? Espaço de comunhão? Que nada! A disputa pelos holofotes acontece dos ensaios à coxia, atinge o grau máximo em cima do palco. “Olhem para mim! Só para mim!”
A tristeza. O sofrimento. A angústia. Quem faz balé conhece os três muito bem, não importa qual o papel da dança na sua vida.
Precisamos mesmo disso?
Eu quero a alegria, a tristeza vem de bônus ao longo da vida, não é necessário procurá-la.
Por favor, não se sintam ofendidos, não estou questionando as pessoas. Estou questionando um mundo que tem seu próprio sistema, independentemente de quem entra ou quem sai. Porque quase todos se moldam, não é? É legítimo querer entrar para uma Cia. E se ela tem regras, aceitemos, pois é a única maneira de fazer parte dela.
Quando fazemos balé sem nos preocuparmos com mesquinharias ou com uns e com outros, nós evoluímos mais e sem sofrer. Aprendo um pouco por dia, todo dia. Ficamos mais tranquilos. O que nos incomoda não entra em nossas vidas.
Antes achava que o grande problema eram os grupos em si. Mas não... Não são os grupos! Somos nós...!
O que fazemos para mudar isso? Não sei. Eu, realmente, não sei.
Autoria Cássia Pires e adaptação Cia de Arte Flor de Menina
Não adianta pedir para a mãe, a avó, a tia, a amiga prendada: perca o medo das linhas e agulhas e costure sozinha. Nas primeiras vezes, as costuras ficam horríveis. Depois, você passa a fazê-lo sem nem pensar a respeito. Além disso, uma de suas sapatilhas pode se descosturar pouco antes de você entrar no palco, ou antes, de você começar um exame. Imagine só uma bailarina buscando socorro na coxia ou no vestiário para alguém fazer algo que é de sua responsabilidade.
2. Se maquiar
Não importa se você se maquia uma vez por ano quando o espetáculo acontece. Nada de ficar pedindo para maquiarem você. Muitas bailarinas já entraram no palco sem um adereço porque chegaram atrasadas na coxia. Sabe o que elas estavam fazendo? Maquiando outras pessoas. Não era a obrigação delas. Por isso, seja responsável pela sua própria maquiagem. E é importante ressaltar: não é para chegar ao camarim e começar a peregrinação: “Alguém tem base da cor da minha pele? E sombra azul, quem tem?” Use os seus próprios produtos. Aprenda uma maquiagem básica de palco, aqui.
3. Fazer o seu próprio coque
O mais comum! O que mais vezes se é feito, seu amigo e companheiro. E ainda há bailarinas que não sabem como fazê-lo? Não vale usar rabo de cavalo ou ficar de cabelo solto (mesmo porque isso é um absurdo para uma aula de balé). O coque existe no balé não pela beleza, é para os cabelos não nos atrapalharem enquanto dançamos. Tente fazer uma diagonal de cabelo solto para ver o que acontece. Embora, o coque pareça ser difícil de fazer, logo você o começa a fazê-lo sem espelho e em poucos minutos. Sem falar que um coque bem-feito, além de lindo, te deixa com cara de bailarina de verdade. Para aprender três tipos diferentes de coque, clique aqui.
E os bailarinos? Eles só estão dispensados do item 3. No caso da maquiagem, eles devem saber como tirar o brilho do rosto e ressaltar os olhos, ou fazer uma maquiagem específica de sua personagem. Não podemos confundir: a maquiagem do dia a dia é para ressaltar a beleza; do palco, é parte da personagem tanto quanto o figurino. Por isso, bailarinos não só podem como devem usá-la.
É comum ouvirmos que determinada bailarina interpretou muito bem tal personagem. Na verdade, ela simplesmente soube expressar as características de tal protagonista. São coisas bem diferentes, nem sempre perceptíveis para quem desconhece como cada arte funciona.
Não existe o “entrar na personagem”. Isso é bonito, romântico e poético, mas interpretação é técnica. Estuda-se muito para isso. “Ah, então, por que nem todos que estudam teatro são bons atores?” Pelo mesmo motivo que nem todos que estudam balé são bons bailarinos.
Há diversos teóricos sobre o assunto (por exemplo, Brecht, Artaud, Grotowski, Boal), mas um dos mais importantes e estudados é Stanislavski. A base do seu método consta em três livros: A preparação do ator, A construção da personagem e A criação de um papel.
Bailarinos precisam conhecê-lo?
Não. Mas precisam saber que NÃO SÃO ATORES.
Não vou me aprofundar no assunto, porque os livros existem para isso. Passarei brevemente por uma parte do processo de composição de personagem, para vocês entenderem a diferença citada no título.
Quando um ator recebe uma personagem, a primeira parte de seu trabalho é compô-lo. Ele terá de transformar uma ideia em praticamente uma pessoa, para que os espectadores assistam e acreditem que aquele ser existe. Sim, sabemos que é tudo ficção, mas se não nos envolvêssemos, ninguém se emocionaria em uma peça, filme ou novela.
Como construir alguém que não existe? O ator tem apenas o básico: a história da personagem inserida em uma história maior. Pensemos em Marguerite, personagem de A dama das camélias, romance de Alexandre Dumas Filho, que virou peça, vários filmes, a ópera La Traviata e o balé de John Neumeier.
Prostituta de luxo, sustentada por seus amantes, ela se apaixona por um rapaz mais jovem, Armand. O pai do rapaz faz de tudo para separá-los, chegando praticamente a chantageá-la. Além disso, ela está morrendo por conta da tuberculose. O que ela faz? Renuncia esse amor, sem dizer a ele o verdadeiro motivo do abandono. O final? Não vou estragar a graça de ninguém.
Com isso em mãos, uma atriz só sabe coisas básicas: Marguerite é prostituta, sustentada pela burguesia, é refinada, está doente, é mais velha que seu amante, conhece bem os meandros da sociedade da época, guarda o real motivo de sua separação. Ou seja, não é ingênua, é sagaz, experiente e sabe onde está pisando.
Agora, é hora de dar vida a essa mulher. Há várias maneiras, mas uma delas é se abastecer de referências. A atriz lerá romances de mulheres que tiveram de renunciar ao amor, assistirá a filmes de cortesãs do século XIX, pesquisará sobre os sintomas que caracterizam uma tuberculose, lerá poemas sobre amores trágicos, ouvirá canções que remeterão à renúncia e infortúnio, estudará sobre os modos burgueses da época em que se passa a história, pesquisará imagens de mulheres refinadas daquele período, enfim, ela mergulhará nesse mundo. Além disso, poderá reconstruir as lacunas dessa personagem: Ela se apaixonou antes? Por que começou a se prostituir? Ela tem família? O que aconteceu em sua vida até o momento em que conhece Armand?
O espectador precisa saber disso? Não. Isso é importante para a atriz em questão. Antes que os outros acreditem, ela precisa enxergar essa personagem como um ser verossímil.
O próximo passo do trabalho é o processo de montagem, específico demais para quem não é da área.
Uma bailarina não precisa fazer a mesma coisa, não precisa construir a Marguerite. Mesmo assim, ela tem de entender essa mulher. Entender o que está acontecendo: uma mulher apaixonada que terá de renunciar ao seu amor por conta das pressões sociais da época.
No momento do espetáculo que corresponde à separação dos dois, a bailarina não poderá entrar sorridente no palco, mas nem por isso deverá fazer caras e bocas para demonstrar o sofrimento de Marguerite. Aliás, erro básico que, por favor, jamais cometam. Nada de retorcer seu rosto para demonstrar sentimento; ele começa do lado de dentro. Simplesmente, sinta. Emocione-se com a dança, com a história, com a música. Dance com o corpo e com o coração. No Pas de Deux negro, entre Marguerite e Armand, sinta a angústia desse casal que se ama e não poderá ficar junto. Naturalmente, o rosto e o corpo expressarão tristeza e resignação.
Expressar tristeza e resignação. Só isso que a bailarina precisa. Entendendo essa questão, fica fácil perceber a vivacidade de Kitri, a angústia de Odette, a ingenuidade de Giselle, a doçura de Lise… O próprio balé traz a emoção à tona. Esse é o limite. Quem quer ir além, exagera e fica falso, e ninguém é tocado pela falsidade.
Agora, vejamos na prática.
Trecho do filme A dama das camélias, de Mauro Bolognini, 1980, com Isabelle Huppert. Prestem atenção nos primeiros cinco minutos. Ela mal precisa falar: o seu olhar, os seus gestos, a expressão do seu rosto, tudo nos mostra o seu sofrimento. Esta é a Marguerite imersa em dor.
Cena do balé A dama das camélias, de John Neumeier, Ópera de Paris, com Agnès Letestu. Notem o seu ar de tristeza e resignação. Não precisamos perceber de maneira consciente o que está acontecendo: o seu corpo e o seu rosto nos dizem que estamos diante de uma mulher que está sofrendo.
Deu para entender? Por isso bailarinas, se expressem da melhor maneira possível e deixem a interpretação para o teatro. Cada coisa lindamente no seu lugar.
Você é solista de uma das maiores companhias de dança do mundo. Por essa razão, às vezes você dança os papéis principais de alguns balés. Gamzatti, por exemplo, há exatos dois anos.
Em determinado dia, a apresentação de “La Bayadère” realizada pela companhia seria transmitida para vários cinemas de todo o continente. Ao vivo!
Por alguma ironia do destino, todas as bailarinas escaladas para fazerem o papel de Gamzatti sofreram alguma lesão. Cinco ou seis, ao todo. O maître de balé lhe diz: “Você dançou o papel de Gamzatti há dois anos, certo? Você se lembra dele? Será que você pode dançá-lo esta noite? Se você não fizer isso, não há mais ninguém que o faça”.
E aí? Você não se apresenta e deixa a companhia resolver o problema ou você encara sabendo que dançou o papel há dois anos, não fará ensaio geral e será vista ao vivo nos cinemas de vários países?
Ludmila Pagliero disse sim. Ela era première danseuse, havia dançado “La Bayadère” dois anos antes, até o momento em que Laurent Hilaire pediu a ela para praticamente salvar a Ópera de Paris naquele dia.
Ela não fez o cabriole na altura que deveria. Ela terminou os fouettés antes do tempo. O que uma bailarina, que tanto treina para ser perfeita, precisa ter para aceitar o desafio de ser imperfeita para tantas pessoas ao mesmo tempo? Coragem...!
Ao final do espetáculo, o que aconteceu? Ela foi nomeadaÉtoile.
Ludmila Pagliero ao ser nomeada Étoile
Quando perdemos o medo de sermos imperfeitos e aceitamos que perfeição não existe, surge a coragem. E as coisas finalmente começam a acontecer.
Etiqueta nada mais é do que um conjunto de normas de conduta. É uma maneira de vivermos bem, e educadamente, em sociedade. No mundo do “sou mais eu”, isso está bem fora de moda.
O site da Gaynor fez uma lista de “condutas não permitidas” nas aulas de balé clássico. Não só, quem faz compras pelo site pode pedir um pôster com algumas regras de etiqueta e esta ilustração.
Ilustração: Andrea Selby. Fonte: Gaynor Minden.
Esta é a lista de violações de etiqueta nas aulas de balé. Ela foi retirada do site da Gaynor Minden e todos esses erros aparecem na ilustração (para vê-la em tamanho maior, basta clicar na imagem).
Conversar, sussurrar ou rir.
Usar roupas rasgadas, sujas ou em mau estado.
Usar roupas, inclusive polainas, que fiquem caindo.
Usar jóias e bijuterias grandes.
Beber (exceto água).
Ligar um ventilador ou abrir uma janela sem permissão.
Tirar fotografias sem permissão.
Ficar assistindo (à aula) da porta da sala.
Sentar ou se pendurar nas barras fixas.
Pendurar roupas ou bolsas nas barras fixas.
Falar ao telefone.
Mandar mensagens de texto.
Comer.
Colocar a mão ou se apoiar no piano.
Mascar chicletes.
Demonstrações de afeto (leia-se, beijos e chamegos entre namorados).
Pés descalços (na aula de balé).
Usar sapatos e roupas “da rua” em aulas de balé.
Coreografar os seus próprios passos.
Entrar na aula com atraso.
Sair da aula mais cedo.
Se posicionar na frente da primeira pessoa na barra.
Usar botas de aquecimento nos exercícios de centro (isto aqui).
Ficar de mão dada ou entrelaçar os cotovelos com um colega de classe.
Ouvir o seu iPod ou MP3 player.
Figurinos (claro que isso não se refere aos ensaios).
Animais de estimação.
Usar collants sensuais.
Mau odor corporal ou perfume forte.
Cabelos longos soltos ou longos rabos de cavalo.
Sem camisa (claro que está falando dos rapazes).
Bolsas muito grandes.
Não ajudar a mudar as barras de lugar.
Cochilar.
Usar chapéus.
Sinceramente, eu concordo com todos esses itens (apesar de alguns nem sempre se aplicarem a nós, como essas botas de aquecimento). Não vou dizer que nunca cometi algumas dessas gafes, tampouco acho que devemos levar tudo a ferro e fogo, mas evitar essas condutas facilita a vida de todo o mundo na sala de aula. E é bom ressaltar: não vale apenas para alunos, mas também para professores.
E há alguma coisa que vocês acham que deveria estar nessa lista e não está? Eu tenho: gritar e levantar a voz. Acho isso o cúmulo da falta de respeito e educação.
Não importa há quanto tempo nós dançamos, é raro não termos no nosso imaginário um perfil da bailarina ou bailarino que queremos ser.
Acho bacana reconhecermos esse perfil. Como queremos ser? Quais elementos são mais importantes para nós? Ninguém consegue ser tudo. Se a gente pegar os bailarinos profissionais, veremos que são artistas bem diferentes uns dos outros. De tanto analisá-los, comecei a perceber o que é mais interessante para mim.
Assim, defini os quatro elementos que me compõe como bailarina aqueles que são meu foco constante no estudo.
Leveza
Não confundam com leveza física, falo da leveza do movimento. Saltar sem esforço, por exemplo, especialmente nos pequenos saltos. O meu maior medo é parecer um elefantinho pulando e não uma pulga saltando. Para isso, muito plié, relevé, pequenos saltos e baterias.
Fluidez dos movimentos
Algo que me incomoda bastante é quando a bailarina pensa no passo seguinte. Parece que vemos uma pausa, um movimento, outra pausa, mais um movimento. Gosto quando um termina, o outro começa e sequer notamos, eles vão se ligando ao longo da coreografia. Talvez, a fluidez exista quando o movimento já faz parte do nosso corpo a ponto de não precisarmos pensar em como fazê-lo, a gente simplesmente o faz. Como conseguir isso? Muito treino e repetição nessa vida.
Limpeza técnica
Meu lema é: antes uma pirueta limpa do que duas malfeitas. Sem limpeza técnica não existe dança de qualidade. Para isso, é preciso buscar o passo na sua essência, entender como ele é feito e como funciona. Talvez por isso eu goste tanto de estudar técnica clássica. E não falo de perfeição, hein?! Mas de fazer bem-feito. Outra coisa importante: não podemos confundir com hiperextensão. Attitude derrière e arabesque a 90 graus são sinônimos de movimentos limpos, por exemplo. Um movimento muito amplo, às vezes, é sujeira na certa. A menos que você seja a Sylvie Guillem, claro.
Musicalidade
Erre o passo, mas não erre o tempo da música! Talvez seja esse o ponto que menos trabalhamos, mesmo sendo um dos mais importantes. A música na dança tem uma razão de ser. Sim, sei que existe dança contemporânea sem música, mas… Meu corpo não entende isso. Vejo a dança como extensão da música; para mim, elas funcionam juntas. Um exercício que faço é ouvir muita música e imaginar os passos enquanto ouço. Não importa se conheço a coreografia, o exercício consiste em coordenar música e movimento. Depois, é passar da imaginação para a ação.